terça-feira, 14 de julho de 2026

"20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema contemporâneo potente que transita pelo existencialismo, pela metalinguagem e pelo absurdismo.


"20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada"
 de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema contemporâneo potente que transita pelo
existencialismo, pela metalinguagem e pelo absurdismo
. O texto utiliza o contraste entre o cotidiano banal e a imensidão do questionamento filosófico para refletir sobre a condição humana. 

Abaixo, apresentamos uma análise detalhada dividida pelos principais eixos temáticos da obra:

1. O Título: O Contraste do Tempo e do Espaço

O título "20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada" atua como uma âncora de realidade.
  • O Banal vs. O Profundo: Ele situa o leitor em um momento extremamente específico, ordinário e quase tedioso da rotina urbana (o meio de uma tarde de dia útil). O clima "abafada" evoca uma sensação física de estagnação, peso e desconforto.
  • O Disparador: É justamente a partir desse tédio cotidiano e sufocante que emergem os pensamentos mais profundos e asfixiantes sobre a existência.

2. Primeira Estrofe: A Metalinguagem e o Esgotamento Cultural

"Nascemos tarde demais, para dizer alguma coisa que nunca foi dita. Mas podemos trabalhar com a forma de dizê-la."

Esgotamento Pós-Moderno: O eu lírico reconhece que a humanidade já produziu milênios de filosofia, arte e literatura. Há uma sensação de saturação: todas as grandes verdades ou angústias já foram mapeadas.

A Forma como Salvação: Diante da impossibilidade da originalidade temática absoluta, o foco muda do conteúdo para a estética. Se não podemos criar uma mensagem inédita, nossa originalidade reside no estilo, na linguagem e no ponto de vista. É uma celebração do papel da própria poesia e da arte na contemporaneidade.

3. Segunda Estrofe: A Perspectiva Evolutiva e a Humildade Cósmica

"Talvez, apesar da consciência, o humano seja apenas mais uma espécie primitiva, no limiar da evolução, aguardando o empurrão para evoluir."

  • Ironia da Consciência: A inteligência e a autoconsciência humanas — frequentemente usadas para nos colocar no topo da criação — são reduzidas aqui a um estágio inicial. O eu lírico nos despe da arrogância antropocêntrica.
  • Transição Otimista (ou Melancólica): Ao nos classificar como "primitivos no limiar", o poema sugere que somos um rascunho. Estamos biologicamente ou espiritualmente incompletos, estagnados na "quinta-feira abafada" da nossa própria evolução, dependendo de um fator externo ("o empurrão") para avançar. 

4. Terceira Estrofe: O Absurdismo Camusiano

  • O Conceito do Absurdo: Esta estrofe sintetiza perfeitamente a filosofia do Absurdo de Albert Camus. O sofrimento humano deriva justamente do descompasso entre a nossa necessidade intrínseca de encontrar propósitos, deuses, destinos ou razões, e a total indiferença de um universo frio, mecânico e silencioso.
  • O "Desespero" Humano: A palavra "desesperada" evoca a solidão da espécie. Criamos narrativas e significados para não enlouquecermos diante do vazio cósmico.

Conclusão

O poema é um retrato cirúrgico da angústia contemporânea. Ele parte de um instante prosaico (uma tarde abafada) para escalar até o vazio existencial absoluto. O texto não oferece respostas ou consolos religiosos; em vez disso, sugere que nossa única ferramenta de sobrevivência diante do silêncio do universo é a nossa capacidade de recriar a forma como contamos a nossa própria história

________________________________________

20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada
Michel F.M.

Nascemos tarde demais, para dizer alguma coisa que nunca foi dita. Mas podemos trabalhar com a forma de dizê-la. 

Talvez, apesar da consciência, o humano seja apenas mais uma espécie primitiva, no limiar da evolução, aguardando o empurrão para evoluir. 

Desesperada por atribuir sentido a tudo, em um universo que não se importa com o significado de nada.

18/04/23
B.M.F. Margoni 

"20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema contemporâneo potente que transita pelo existencialismo, pela metalinguagem e pelo absurdismo.

"20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada"  de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema contemporâneo...