quarta-feira, 24 de junho de 2026

O poema "Interditado para Reparos", de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma profunda reflexão existencial sobre o tempo, o desapego e a impermanência. O título sugere uma pausa necessária na alma para reorganizar os sentimentos e aceitar as transformações da vida.


O poema "Interditado para Reparos", de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma profunda reflexão existencial sobre o tempo, o desapego e a impermanência. O título sugere uma pausa necessária na alma para reorganizar os sentimentos e aceitar as transformações da vida.

Abaixo, apresento uma análise detalhada da estrutura e dos temas centrais da obra:

1. A Armadilha do Medo e a Ilusão do Tempo

Nas primeiras estrofes, o eu lírico identifica o sofrimento humano na fixação pelo futuro.
  • Paradoxo da felicidade: Sentimos medo de ser felizes porque projetamos o desejo de eternidade em algo que é inerentemente passageiro.
  • A dádiva do "agora": Há um jogo de palavras com o termo "presente" (tempo atual e dádiva). O poema defende que a única posse real é o momento atual. [1]

2. A Eternidade na Efemeridade

A partir da quarta estrofe, o autor traz uma reviravolta filosófica:
  • Eternizar o instante: Quando aceitamos que tudo passa, os momentos efêmeros deixam de trazer angústia.
  • Mudança de perspectiva: A aceitação liberta o eu lírico, fazendo com que o instante vivido se grave na memória e se torne seu "para sempre".

3. A Poética do Desapego: Partir, Partos e Apartar

O coração do poema reside no brilhante jogo linguístico com o radical "part-", usado para explicar os ciclos biológicos e emocionais da vida.
  • Ciclos vitais: O nascimento ("parto") exige necessariamente uma separação ("partir"). É preciso deixar o útero, a infância e a inocência para crescer.
  • Evolução emocional: O verbo "apartar" surge como isolamento da dor, enquanto "apaziguar" e "apertar" representam o ato de abraçar o amor por inteiro, mas ter a maturidade de deixá-lo ir quando o ciclo termina.

4. O Impacto do Olhar e a Conclusão Amorosa

A parte final rompe ligeiramente com o tom puramente filosófico e introduz uma memória afetiva avassaladora.
  • Hipérbole da paixão: O olhar do ser amado ("olhadelas com que ela me atingia") é comparado a forças da natureza incomensuráveis.
  • Escala do sentimento: Ao mencionar que o olhar não pode ser medido por "qualquer escala", o poeta evoca fenômenos grandiosos (como terremotos na Escala Richter), mostrando que o amor vivido no presente, mesmo que já passado, deixou uma marca eterna e indestrutível.

Estrutura Formal

O poema é escrito em versos livres e estrofes curtas, sem rimas rígidas. Essa estrutura fragmentada mimetiza o próprio fluxo do tempo e a efemeridade dos instantes descritos no texto.


______________________________________


Interditado para Reparos

nosso medo 
da felicidade, 
surge de querermos  
que ela dure para sempre. 

mas nem o ontem 
e nem o amanhã 
nos pertence, 

nós só temos o agora, 
o único presente 
que recebemos.

quando passamos 
a entender isso 
um pouco melhor, 

os instantes efêmeros, 
que estão prestes 
a dissolver, 

se tornam nossos
para sempre.

a vida 
é uma despedida 
constante, 

para que novos 
começos 
aconteçam.

para que partos
ocorram,
é inevitável
ter que partir,
inevitável
ter que apartar.

partir de um útero,
de uma infância,
da inocência.

apartar uma tristeza,
apaziguar uma alma,
apertar um amor e deixá-lo partir.

mas aquelas 
olhadelas 
com que ela me atingia,

eram as maiores
manifestações naturais,
já registradas
por qualquer escala.

05/11/23
Michel F.M.
B.M.F. Margoni 

Interditado para Reparos - Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração - 2024 - B.M.F. Margoni


Interditado para Reparos

nosso medo 
da felicidade, 
surge de querermos  
que ela dure para sempre. 

mas nem o ontem 
e nem o amanhã 
nos pertence, 

nós só temos o agora, 
o único presente 
que recebemos.

quando passamos 
a entender isso 
um pouco melhor, 

os instantes efêmeros, 
que estão prestes 
a dissolver, 

se tornam nossos
para sempre.

a vida 
é uma despedida 
constante, 

para que novos 
começos 
aconteçam.

para que partos
ocorram,
é inevitável
ter que partir,
inevitável
ter que apartar.

partir de um útero,
de uma infância,
da inocência.

apartar uma tristeza,
apaziguar uma alma,
apertar um amor e deixá-lo partir.

mas aquelas 
olhadelas 
com que ela me atingia,

eram as maiores
manifestações naturais,
já registradas
por qualquer escala.

05/11/23
Michel F.M.

terça-feira, 23 de junho de 2026

O Matador Miserável de Relacionamentos Concretos - Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração - [B.M.F. Margoni]

O Matador Miserável 
de Relacionamentos Concretos 

imploro a ti,
que não odeie a poesia,
por causa do poeta.
ela não é culpada 
pelo que ele é.

a obra não merece 
os erros do criador.
não é tua incumbência
como criatura,
submeter-se
a quem te gerou.

nenhuma realização
desejou existir,
desprovida de escolha
ela veio à tona
pela vontade de um outro.

então aqui, te imploro,
que por causa do poeta
não odeie a poesia,
ela jamais foi culpada
pelo que ele é.

03/11/23
Michel F.M.
[B.M.F. Margoni]

domingo, 14 de junho de 2026

Torrões de Açúcar - Michel F.M. (Ensaio sobre a Distração) 2024


Torrões de Açúcar 

neste emaranhado 
de contradições 
consiste nossa vida. 

esquecemos 
completamente
de ser felizes, 

enquanto dedicamos 
toda nossa energia 
perseguindo a felicidade.

15/10/23
Michel F.M.

Desandando a Massa e Vivendo nos Intervalos - Michel F.M. (Ensaio sobre a Distração) 2024


Desandando a Massa e Vivendo nos Intervalos 

fazer o mínimo é um exagero
demasiado. nossa meta 
é não fazer sequer o mínimo.

todavia, nos propomos
atrapalhar a todos,
sempre que possível.

dedique-se ao incômodo,
semeie o desconforto,
seja picante e caótico.

produza nada,
contribua com ninguém,
seja um maldito colaborador.

concorde com o regresso,
colabore com a desordem,
semeie apatia e impotência.

viemos para empurrá-los do pedestal,
jogá-los ladeira abaixo,
rasgar tuas vestes caras,

furar teus pneus importados,
perder todo o seu lucro,
esgotar teus rendimentos.

derrubar tuas fronteiras,
queimar tuas bandeiras,
apagar seus slogans.

desprezamos tuas corporações,
odiamos alegremente tuas marcas,
martelaremos forte tuas máscaras.

socamos o desempenho
bem no meio da cara,
almejamos o prejuízo,

investimos para a falência.
por fim, namastêfoda-se
a esta pesada filhadaputagem.

somos a infecção generalizada
em sua bolha perfeita, 
pomposa e purulenta, vazando.

que a fantástica fábrica de ilusões
exploda e seus pedaços decorem
o céu estrelado.

que toda certeza se torne um talvez
e que a noite nasça iluminada,
uma última vez, neste sonho desintegrado.

13/10/23
Michel F.M.

"20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema contemporâneo potente que transita pelo existencialismo, pela metalinguagem e pelo absurdismo.

"20 pras 3 da tarde numa quinta-feira abafada"  de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema contemporâneo...